Seis coisas que você não sabe sobre mim

on segunda-feira, 26 de abril de 2010

Minha primeira postagem no domínio novo não poderia ser mais especial. Hoje, eu recebi da minha queridíssima Leila Franca o convite para uma leitura em seu blog. Fiquei muito feliz porque, além de conhecer melhor essa mulher notável, eu estava entre 6 amigos escolhidos por ela para dar continuidade ao MEME do Lison. Também recebi convite dos amigos Edson PalmaJ. Aparecido Vieira, o que me deixou bastante lisonjeada porque são duas pessoas por quem tenho grande admiração.                                        


Vamos lá:                        

Ano após ano, a família se reúne aqui em casa no Natal. Meu tio Reinaldo adora contar minhas peripécias infantis. A mais apreciada é a de uma visita que ele, seus sogros e minha tia nos fizeram quando eu tinha 5 anos de idade. A canjica da minha mãe era considerada um néctar dos deuses. Quando todos terminaram de comer, eu fui recolhendo talheres e louças. O seu Otávio tinha deixado de lado um daqueles grãos amarelos. Dizem que eu coloquei a mão na cintura e disse: “Tio, tem que comer tudo porque agora o dinheiro já tá gastado”! Mas não se pode dizer que, prematuramente, eu tinha preocupações com as economias da família, pois, eu comecei a usar óculos com 3 anos de idade e toda semana eu perdia um par. Mamãe não entendia o sumiço, até o vizinho aparecer com dezenas deles, que eu arremessava sobre o muro da casa. A sorte é que não precisei mais de óculos quando completei 12 anos.   

Aos 19 anos de idade, eu voltava dos treinos de xadrez e tiro olímpico. Quase chegando em casa, sofri uma tentativa de estupro. Enquanto a pessoa me ameaçava e começava a me despir violentamente, eu vi o meu pai na janela, certamente, bravo com o meu atraso. Eu não pude fazer nada, pois, estava com uma faca no pescoço. Antes que o elemento concluísse o crime, eu fui salva por uma moça que passava pelo local. Ao perceber a situação, ela acionou dois rapazes e o bandido fugiu. Pouco tempo antes, eu tive um aborto espontâneo, sem saber que estava grávida, durante uma separação conjugal. E pouco tempo depois, eu tive que lidar com uma série de assédios sexuais no trabalho. Ficou tudo lá no passado, já está tudo superado. 

O meu pai era um bombeiro muito valente. Mas em casa era um alcoólatra opressor. Possuído pelo álcool, ele torturava a família. Mesmo assim eu tive uma adolescência, na medida do possível, normal. Comecei a trabalhar com 12 anos, namorei a partir dos 13, fui a shows a partir dos 14, estudei o máximo que pude, tudo contra a vontade do meu pai, inclusive os estudos. Fiz o possível para driblar a angustiante convivência com ele. Resolvi morar sozinha, alimentando a esperança de um dia ter uma relação saudável de pai e filha, nem que fosse na velhice. Mas ele morreu aos 58 anos e o entendimento que eu tanto sonhava se desfez em frustração. Dentro do meu coração não existe mais rancor, pelo contrário, eu consegui compreender e amar o meu pai, apesar dos pesares. Anos depois, eu fui entrevistar o comandante responsável pelo combate ao terrível incêndio da Vila Socó. Ele começou a descrever o heroísmo de um bombeiro. No decorrer da entrevista, eu fui surpreendida pelo fato de que esse herói era o meu pai.

    A minha vida sempre teve trilha sonora, desde a escolha do meu nome, por causa da Cantiga por Luciana, até hoje. Eu cresci ouvindo serestas, meu pai tocava acordeon e violão e mamãe continua tocando piano e cantando. Meu irmão é percussionista, além de jornalista. Minha irmã estudou música na faculdade de teatro. A minha família inteira tem músicos de todos os gêneros e instrumentos musicais. Eu “arranhei” piano, flauta, violão e gaita de boca, além de cantar num festival de MPB. Na hora de cantar Mônica e Rosas, de Eduardo Nogueira, eu esqueci a letra. Pedi desculpas e, por solidariedade, a platéia me aplaudiu. Recomecei a apresentação e, apesar do meu deslize, ficamos na 6ª colocação. Meu lugar, definitivamente, não é no palco. Em contrapartida, eu tive sucesso trabalhando na produção de festivais de blues e rock, o que me realizou, principalmente, popularizando a gaita de boca na imprensa regional.  

    Um homem muito especial chamado Nelson declarou-se apaixonado por mim. Mas eu só pude corresponder com a minha amizade. Músico, toda vez que ele me avistava na platéia, parava o show pra fazer uma declaração pública de amor. Quando eu fui morar no Rio de Janeiro, ele me telefonou. Estava internado, muito doente, e disse que precisava dizer mais uma vez que me amava. Eu fiquei dias dormindo mal, comendo mal, passando mal. Tempos depois, eu voltei para Santos e soube que ele estava se recuperando em casa. Achei melhor não o procurar, pensei ser melhor para ele não ter mais notícias minhas. Sobre o sentimento por mim, ele desabafava com João, amigo dele de longa data. Não demorou muito, Nelson morreu e, por força dessa triste circunstância, eu e João nos conhecemos. Ficamos amigos, cada um na sua, o mundo girou e demorou 5 anos para começarmos a namorar. Não é exatamente um conto de fadas, mas somos felizes juntos.  O nosso projeto de vida inclui morar no nordeste em médio prazo.  

    Quando eu fiz 33 anos de idade, resolvi fazer uma discreta comemoração. Chamei uns amigos para tomar uma cerveja num boteco, levei bolo e umas tortas. De repente começou a aparecer um monte de gente, muita gente mesmo. Desde amigos de infância que eu nunca mais tive notícias, até gente que eu só conhecia da internet. Eu não sabia o que fazer com tantos presentes. O meu irmão tinha uma banda e rolou um som ao vivo. A festa cresceu tanto que alguns carros paravam na porta. As pessoas queriam saber que “balada” nova era aquela que estava “bombando”.  Não foi uma festa surpresa, mas, a festa surpreendeu. 

      Agora é a minha vez de escolher 6 amigos para irem em frente. Mas é muito difícil escolher só 6, poxa!


      Assis Azevedo
      Carla Castro Maia
       Edson Palma

      Guaraci Celso Primo
       
      Margareth Duval 

      Radi Lopes

       





      Ai, gente! Não posso escolher mais uns 600?
      Tá bom, vai!
      REGRINHAS:
      a) Vocês podem eleger até seis amigos (as) e repassarem o MEME;
      b) Colocar o link dos blogs listados;
      c) Avisar o (a) amigo (a) sobre a postagem;
      Deixar um comentário no respectivo Blog.

      Dedo de luz

      on sábado, 24 de abril de 2010


      Eu conhecia tâmaras só de vista. Vamos dizer que fomos apresentadas e eu nunca dei bola pra ela. Eu a via em vários lugares, inclusive na minha mesa, e jamais tive vontade ou curiosidade de experimentar. E olha que sou curiosa!                              

      Ontem, no cantinho de um mercado, dei de cara com essas frutinhas. Eu comprei e não saberia explicar o motivo. Minha mãe ficou surpresa, pois, as tâmaras que apareceram na minha casa ao longo dos anos foram compradas por ela e nunca alguém se interessou. 

      Ainda tive que ouvir: "Você fica comprando coisas que nem gosta e depois deixa estragando ou eu tenho que comer tudo sozinha"!

      Gente, como não gosto sem saber que gosto tem? A razão de não ter sabido antes? Também não sei! Mais tarde jantei e, na hora da sobremesa, eu ainda hesitei. Dizem que a gente come primeiro com os olhos, mas eu não me sentia atraída.

      Depois da primeira, eu desembestei a comer todas. Hummm, que delícia! Eu e mamãe quase apelamos no par ou ímpar pra ver quem ficava com a última. Mas ela abre mão de tudo pelos filhinhos. Mesmo que a gente queira debater, passar a vez e ser feliz dando um gosto à uma mãe, a última palavra é sempre dela e o seu desejo de satisfazer os filhos é sempre maior.

      Lá pelas 21 horas, eu já estava caindo de sono. Lá pelas 22, eu devo ter apagado. Nem ouvi mamãe dizer: "Durma com Deus, minha filha"!

      Agora há pouco, eu resolvi ler sobre as tâmaras. Descobri que, em árabe, o nome significa dedo de luz. Entre os inúmeros benefícios para a saúde, estimula a produção de melatonina e concilia o sono. 

      Portanto, dedo no interruptor, apague a luz e boa noite!


      Boa noite!

      on quarta-feira, 21 de abril de 2010

      Quem me dera as tormentas sempre levassem ao começo do fim. A um céu todo rabiscado de vermelho e uma contemplação de “poetizar” na cabeça. Defronte, ponte; o caso, ao acaso, ocaso. 

      Rimas, métricas, pena, mas não sei escrever poesia. E mesmo que soubesse, sem lápis e papel, o vento e o mar levariam minhas palavras da areia num piscar de olhos. Vistas que não podem se fechar nem por um instante, pois, o espetáculo é fugaz. 
                                                           
      A paisagem transcende, acende, apaga e acende, pisca-pisca.  O céu vai desencarnando o dia e cobrindo o azul do mar de dourado. Mais um dia que desmorona quando morros verdejantes assumem-se brumas dormentes em luzes advindas de concreto. Mais uma noite na selva de pedra in natura.





      Foto: Praias dos Milionários e Gonzaguinha, São Vicente, SP. Mais fotos:  
      http://www.facebook.com/album.php?aid=3902&id=100000944499962&l=6971402256 
      Para quem gosta de finais de tarde, eu recomendo:
      Ocaso Real:http://ocasoreal.blogspot.com/

      O que te dá asas?

      on domingo, 18 de abril de 2010


      Por esses dias, eu saí de casa com uma sacola de viagens e, prezando o conforto, usei a tira transversal. Confiante, eu caminhava a poucas quadras da minha casa quando avistei alguém andando um tanto saltitante e gesticulando de forma rápida.                      

      A minha primeira impressão foi a de uma pessoa com um problema de saúde causador de certo descontrole da coordenação motora. Conforme fomos nos aproximando, eu percebi que era uma doença, porém, diferente do que imaginei na primeira olhada.

      Quando o sujeito abaixou-se para procurar algo num canteiro, desses que ficam rentes aos muros dos edifícios, eu aproveitei que ele ainda não tinha me visto e atravessei a rua. Fui em direção aos lugares mais movimentados. Passei na porta de um clube cheio de gente e não me senti realmente ameaçada.

      De repente, senti um ventinho, algo vindo de cima e me acertando em cheio. O rapaz não queria me assaltar, nem me machucar. Mas ele gritava com muita convicção que eu estava com uma coisa que lhe pertencia e queria de volta a qualquer custo.

      Desesperadamente, ele puxava a minha bolsa para procurar o que estava perdido. Eu queria soltar, nem pensei em reagir. Mas a força dele prendeu o meu braço na alça. 

      Um senhor, bastante idoso, tentou me separar da bolsa para poder me libertar da fúria daquele homem. Levou um desajeitado safanão e desequilibrou-se umas três vezes, mas não chegou a cair no chão. Ali eu senti mais insegurança, o medo de uma dessas tragédias que acontecem diariamente.

      Em nenhum momento discordamos, eu e o senhor que nem sei o nome, de que algo estava perdido de fato. Não falamos nada, apenas tentamos entregar a sacola, conscientes de que aquele indivíduo não tinha a intenção de nos maltratar, apenas encontrar o que procurava.  

      Alguém apareceu para nos salvar e aquela criatura correu tanto que desapareceu das minhas vistas mais rápido do que pude enxergar.

      A pedra tão preciosa para aquele jovem descontrolado não estava entre os meus objetos. Aquilo que o fez voar até cair sobre mim é a verdadeira tragédia. E o que ele perdeu e nem percebeu foi a própria vida, mesmo que "o pulso ainda pulse".

      Finalmente, eu consegui exorcizar aqui no blog algo que aconteceu comigo. Mas não diz respeito somente a mim. É um problema nosso.

      A "nóia" da indiferença

      on sexta-feira, 16 de abril de 2010


      "A indiferença é para os corações o que o inverno é para a terra*"

      Eu ia responder ao comentário da leitora Depaulla sobre a questão do texto “Ansiedade é um caso sério” no próprio espaço daquela postagem. Mas indiferença revela tantas situações! Eu só posso me basear na minha própria experiência e vou partir de uma pergunta para tentar elaborar um pensamento:      

                               Quem cuida da gente?

      Em 2001, quando eu fui diagnosticada com a síndrome do pânico, fiquei alguns meses transitando apenas dentro da minha casa. Se por um lado o espaço ficou bastante reduzido, por outro os meus horizontes se ampliaram bastante. 

      Nessa ocasião, eu me senti sozinha. Eu nem sabia o que era essa tal síndrome! Eu mesma era indiferente até que ela me abateu! Apesar de toda a compreensão, apoio e total solidariedade que recebi de minha família e amigos, era muito difícil explicar o inexplicável. 

      Minha mãe buscava informação nos mesmos livros que eu e me conduzia aos médicos e psicólogos pela mãozinha. A trintona aqui só conseguia andar na rua se a mamãe levasse. Agora já estou quase quarentona, mas isso são outros quinhentos. 

      Criei um site chamado, justamente, Ansiedade é um caso sério. Tudo que eu lia, descobria, refletia e tudo que acontecia comigo em termos de crises e superações, eu relatava ali. Em 3 meses, pode-se dizer que conheci o mundo na viagem do pânico. Eu tive que arranhar um espanhol e um inglês porque o site todo escrito em português do Brasil era de utilidade internacional. E, curiosamente, no pânico as pessoas eram indiferentes às suas diferenças.

      Diariamente, eu recebia centenas de comentários e e-mails. Com todo o tempo livre que eu tinha, pois, estava afastada de todas as minhas atividades, eu não dava conta de me corresponder com todo mundo, aliás, com todo O mundo. Ainda era um tempo em que as informações sobre o tema não eram fartas e não estou falando do século passado. Apesar de que Freud já teorizava sobre isso lá por volta de 1895. 

      A constatação mais triste que eu fiz foi que a maioria dos “paniquentos”, independente de nacionalidades e credos, sofria também de indiferença, o que gerava o medo de ter medo. A síndrome do pânico pode ou não ter alguns desdobramentos, entre eles, a depressão e a ágorafobia. 

      “A agorafobia é o comportamento de evitação provocados por lugares ou situações onde o escape seria difícil ou embaraçoso caso se tenha uma crise de pânico ou algum mal estar”.

      “Depressão é uma palavra freqüentemente usada para descrever nossos sentimentos. Todos se sentem "para baixo" de vez em quando, ou de alto astral às vezes e tais sentimentos são normais. A depressão, enquanto evento psiquiátrico é algo bastante diferente: é uma doença como outra qualquer que exige tratamento. Muitas pessoas pensam estar ajudando um amigo deprimido ao incentivarem ou mesmo cobrarem tentativas de reagir, distrair-se, de se divertir para superar os sentimentos negativos. Os amigos que agem dessa forma fazem mais mal do que bem, são incompreensivos e talvez até egoístas. O amigo que realmente quer ajudar procura ouvir quem se sente deprimido e no máximo aconselhar ou procurar um profissional quando percebe que o amigo deprimido não está só triste.”

      Quando um paciente não encontra entre familiares e amigos o apoio correto, ou seja, quando é cercado de gente que não entende o seu problema como doença, mas como xiliques, piripaques, frescuras, preguiça e tudo mais, esse paciente encontra mais um obstáculo, mais um agravante para o seu estado físico e mental.

      Eu saí logo da minha “prisão domiciliar”, principalmente porque tive todo o tipo de ajuda e compreensão que uma pessoa pode ter tanto de amigos quanto de familiares. Mas há outras indiferenças que podem nos colocar numa roda gigante, nos impor uma série de altos e baixos.

      Conheci muitas histórias de pessoas que não conseguiam ajuda médica em suas cidades. Não estou falando só de cidades pequenas e interioranas do Brasil. Recebi dois depoimentos de Londres que eram de arrepiar. 

      Estamos falando de enfermidades que não há exames para confirmar e tudo depende da descrição do paciente. Levando em conta que cada um é cada um, as anatomias são parecidas, mas os organismos são diferenciados... Não sei se estou certa em descrever assim, mas deu pra entender, né?

      O que ocorre é que os pacientes viram cobaias. Qual é o tratamento? Psicoterapia e Psiquiatria. Encontrar o remédio que te cabe melhor é a drogaria inteira goela abaixo. Isso se você tem condição financeira de ir experimentando todos os remédios que já existem e todos os outros que vão surgindo prometendo inovações. Caso contrário, na farmácia do postinho só tem um que tem que servir pra todo mundo. 

      Muita gente há de dizer que também existem outros procedimentos. Milhares de outros caminhos que vão das terapias alternativas às curas pela fé. Eu tenho fé em Deus, não cabe aqui falar de religião, mas eu queria registrar que sou uma pessoa espiritualizada. E terapias alternativas, eu já perdi as contas de quantas fiz. Mas eu melhorei bastante, só não estou curada... Ainda.

      Eu tenho um emprego. Sou servidora pública. Isso significa que se eu quisesse escolher outro tratamento que não fosse o psiquiatra, eu precisaria me exonerar. Porque o serviço de perícia médica, obviamente, só reconhece a psiquiatria para tratar esses pacientes. Realmente, se é uma doença, é no médico que vamos tratar.

      Mas a perícia também impõe uma série de coisas. Por exemplo: Sou obrigada a visitar a psicóloga toda semana. Não posso revelar a vocês o que conversamos no consultório porque é uma questão de sigilo profissional. Sim, porque a paciente sou eu, mas quem se consulta comigo é ela. 

      E também sou obrigada a fazer terapia em grupo. Olha só, o lugar onde instalaram a tal terapia em grupo é tão tranqüilo e adequado que ninguém se arrisca a ir sozinho. O grupo se reúne num outro lugar e vai todo mundo junto por uma questão de segurança. 

      Até hoje, eu não dei as caras lá. Mas por uma questão de segurança financeira, é melhor eu aparecer porque acabei de saber que se eu não obedecer as orientações dos médicos da perícia, que não tratam a minha doença, eu vou ficar sem salário. E eu preciso de dinheiro para pagar as consultas particulares com o médico que realmente me trata, pois, o plano de saúde dos servidores praticamente faliu.

      Quem vai cuidar da gente? O governo? Se o governo não consegue tratar nem dor de barriga, o que não falta é gente morrendo por falta de atendimento, você acha que as autoridades vão se preocupar com um bando de doidos cheios de frescurite aguda? Quem vai cuidar da gente é a gente e sempre persistindo no sucesso!

      * Provérbio:

      Caleidoscópio

      on


      O bondinho passa sobre os Arcos da Lapa percorrendo os caminhos de Santa Teresa. Eu não pude ir embora sem antes me despedir desses sobrados, dessa atmosfera de cariocas alternativos. Andei pelas ruas de paralelepípedos entrando e saindo dos ateliês onde artistas locais e os gringos vestidos de cáqui parecem falar a mesma língua. Constatei que esse lugar é mais do que um bairro, é um mundo à parte. À espera de outro bonde para descer a ladeira, sempre avisto o Cristo, sorrio, braços abertos me acolhem. 

      Quase fiquei arrependida de nunca acreditar em previsão do tempo. Até poucos minutos atrás estava sol e de súbito chove em torrentes! Não encontrei abrigo nos casarões que tanto venero. Pois nem procurei, resolvi correr entre os trilhos por onde Carmelitas desfilam sua irreverência no Carnaval. Só parei quando fui surpreendida por uma criança pulando nas poças d´água, jorrando a alegria de sua meninice.

      “De quimeras mil”, avistei ao longe minha mãe sentada na soleira de uma porta imponente e a ouvi tirar do baú mais uma de suas preciosidades do Mercado, bairro santista onde não passam mais os bondes, nem o bloco carnavalesco dos Chineses. 

      - Aqui há os que olham, mas ignoram o abandono. Há os que vêem, mas só enxergam em ruas sujas as brincadeiras de infância. - constatou.

      Na linha do tempo, o Mercado foi centro, hoje é margem. Na linha do progresso, o Mercado foi tudo, hoje é pouco. Na linha do regresso, o Mercado foi vida, hoje é memória. Revirando a poeira, minha mãe encontra o momento em que meu avô fabricava o sabão em barra usado na limpeza dos inúmeros cômodos. Há tempos, da casa restou escombros e do meu avô lembranças.

      - Mamãe, como se fabrica sabão em casa? – perguntei.

      - Nem queira saber, minha filha! Imagine você que quando o sabão em pó chegou o recebemos com festa na praça! - contou-me.

      - Festa para o sabão, mamãe! – exclamei.

      À margem do que minha mãe atina, encontro o centro do que mercado nenhum tem para vender.

      - Os tempos eram outros, minha filha! Sua avó tinha 10 filhos. Aprendi a costurar e lavar minhas próprias roupas com 7 anos de idade. Nosso sabão em barra, feito por meu pai, era desastroso porque a matéria-prima era o sebo. Além de não fazer espuma, o odor não era lá muito agradável. Contudo, nossa vida tinha mais cores. Há 50 anos, eu tinha 12 de idade, 5 de tanque e muitas felicidades, muitos anos de vida. - descreveu-me.

      - Então o sabão em pó mudou a sua vida, mamãe? – perguntei.

      - Ah, sim! Curiosa, eu abri o meu primeiro pacote e segui as instruções. A partir do sabão em pó, descobri que o meu trabalho diário poderia ter perfumes. Em seguida, que minhas brincadeiras poderiam ser mais emocionantes. O talo do mamoeiro era usado como canudinho e assim descobri as bolinhas de sabão. – explicou-me.

      Saí de Santa Teresa direto para o aeroporto Santos Dumont. No céu, vi bolinhas multicoloridas, grandes e pequenas, asas de minha imaginação. Desembarquei em São Paulo, desci a serra, cheguei a Santos. Atrasada como sempre, fui direto ao funeral. Sentindo tristeza com ares de felicidade, doces saudades gris, gotas salgadas com reflexos de luz, despedi-me de mamãe.

      Uhu! Bang! Zzzzzz...

      on quinta-feira, 15 de abril de 2010


      Uhu! Hoje é 15 de abril, dia do Desarmamento Infantil!

      Para desarmar as crianças, nós temos que desarmar primeiro os adultos. Zzzzzzzzz... 


      Foto: Diário do nordeste, 2005, Revistas por armas de brinquedo.

      Na trilha dos curtas

      on sexta-feira, 9 de abril de 2010



       Para encurtar  
      • O norte-americano “Biografia de um saco plástico” lembra-me a viagem de um tomate no brasileiríssimo “Ilha das Flores”. O saco plana sobre a Criação degradada. E o tomate cai sob um plano inclinado à criaturas que rastejam no lixo. Que saco! Ilha revela-se uma porção de chorume cercada de “sopa de plástico” por todos os lados.                          
      • O xadrez das cores” “ põe o preto no branco”, aquece os corações, mas também esquenta a cabeça de gente que pensa pequeno. “Anões em chamas” define-se como humor negro e, em um de seus episódios, entra na cabeça de uma preparadora de elenco evocando um fogo cruzado entre flancos das Artes Cênicas.
      • O verbo amar conjugado no ciberespaço rima com conectar, buscar, teclar, enganar, deletar e inovar. Em “Relações virtuais”: Eu conecto, tu buscas, ela tecla, nós enganamos, vós deletais, eles inovam.
      Curta esse roteiro:
      • Biografia de um saco plástico
      • Ilha das Flores
      • O xadrez das cores
      • Anões em chamas –  Augusto, o ator brechtiniano dislexo #3
      • Relações virtuais

      Guilherme de Pádua no Ratinho

      on quinta-feira, 8 de abril de 2010

      “Você daria uma segunda chance”? Essa foi a pergunta que Ratinho fez antes de chamar Guilherme de Pádua.                                                  
                                      
      No início do programa, foi apresentada uma  matéria abordando os seguintes tópicos:
      • Entrevistas na rua demonstram opiniões divididas sobre o “Começar de Novo”. Um ex-presidiário diz que teve a segunda chance, se redimiu e hoje é pai de família.
      • Retrospectiva: São citados casos como o do cantor Lindomar Castilho e da atriz Dorinha Duval.
      • Guilherme de Pádua e Paula Thomaz, na ocasião sua esposa, mataram a atriz Daniella Perez com requintes de crueldade. A motivação do crime não foi devidamente esclarecida.
      • Atualmente, Pádua é evangélico. Tem uma rotina de gerente de T.I. na Igreja Batista de Lagoinha, Belo Horizonte, Minas Gerais. Um amigo estendeu-lhe a mão dando algo em que Guilherme pudesse se apegar: Um emprego e uma religião. Mas ele não foi recebido de braços abertos por todos os fiéis.
      • Guilherme de Pádua casou-se novamente. Justamente com uma moça da igreja que reagiu mal à chegada dele na congregação. Coincidentemente, outra Paula. Estão casados há 4 anos.
      Finalizado o vídeo, entra a atual esposa, Paula Maia. Sobre medo, ela diz que não teve de Guilherme, mas teve de não conseguir suportar o fardo que ele carrega.


      Entra uma gravação com Guilherme de Pádua falando de sua vida atual ( trecho em chamada do programa):


      Pádua diz que estragou a sua vida, mas, Deus fez a transformação. Ele conta que no primeiro dia de cadeia tinha uma multidão gritando contra ele. Naquela noite pensou em suicídio, no entanto, logo cedo, recebeu uma enorme cesta de café-da-manhã com uma carta de uma idosa. Fato que o fez refletir e tomar outros rumos. Também declarou, sobre sua religiosidade, o seguinte:
      “Eu sou o pior do mundo como falam, mas, ‘se Eu posso fazer na vida do Guilherme, Eu posso fazer na vida de todo mundo’, acho que esse é o recado que Deus quer dar”.
      Finda a gravação e Ratinho continua a conversa com Paula Maia: Quando ocorreu o crime, ela estava com 9 anos de idade. Não acompanhou o caso na época. Mas acredita que hoje seu marido é temente a Deus. E acha que todos nós merecemos o perdão. “Deus é um Deus perdoador”, concluí.


      Entrevista:


      Parte 1 - http://www.youtube.com/watch?v=p7269YQmRXk
      Parte 2 - http://www.youtube.com/watch?v=DnSbGo_JdSs
      Parte 3 - http://www.youtube.com/user/pedrotvaqui#p/a/u/0/7MerqJ2h0Sk
      Matéria citada por Ratinho de Glória Maria entrevistando Guilherme de Pádua para o Fantástico: http://www.youtube.com/watch?v=hNJF7zMb1as


      Alguns trechos da entrevista:
      Ratinho: “Quando te chamam de assassino, como você reage”? Guilherme conta sobre um pastor que lhe disse: “Você ainda não está morto, morto não sente dor, morto não fica chateado”. Pádua diz também que “as pessoas adoram chutar cachorro morto*”.
      Guilherme de Pádua diz ver as pessoas precisando muito de Jesus, pois, lançam nele (Guilherme) as suas frustrações. “Elas se sentem bem humilhando outras pessoas”.
      Ratinho: “A moça levou 18 tesouradas, estocadas! Foi você ou a Paula que deu”?
      Guilherme: “Ratinho: Você não vai pagar o meu advogado? Se vier pra mim por escrito, eu acho que o povo deveria ter o direito de saber”.
      Guilherme: “A minha versão bate com as provas”.
      Ratinho: “Então a justiça errou”?
      Guilherme: “Não, uma vida foi perdida, precisava ter condenação”. Mas recorda que perdeu de 5 a 2 e não de 7 a 0, referindo-se ao júri.
      Ratinho: “Já pensou em pedir perdão pra mãe”? Referindo-se à Gloria Perez.
      Guilherme: “Eu já fiquei maluco pensando nisso”.
      Ratinho: “Você acha que ela vai te perdoar”?
      Guilherme: “Eu espero que essa pessoa seja feliz. Mas eu acho que ela nem vai querer me ouvir”.
      Mais divagações e rodeios sobre a motivação do crime.
      Ratinho encerra o programa com a frase: 
      “Eu, se fosse a Glória, também não perdoaria você".
       A pergunta principal: Por que matou? Não foi respondida.


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      *Morto não sente dor e gostam de chutar cachorro morto? Afinal, Guilherme está vivo ou é um cachorro morto?) 
      O blog “Gostos e desgostos” pergunta: Sensacionalismo ou sociedade em debate? 
       Será que a segunda chance do Guilherme de Pádua será em uma novela do SBT? 

      Fotos de Lu Vaz no Facebook de Bono Vox

      on

      • Bono investe 67 milhões para ser dono de 1% do Facebook 
      "O vocalista do U2 terá pago 15 euros por cada acção da maior rede social do mundo

      Bono Vox, vocalista de uma das maiores bandas do mundo, o U2, decidiu comprar 1% do Facebook, a maior rede social do mundo. O valor: 67 milhões de euros (cerca de 90 milhões de dólares) selaram o acordo com Mark Zuckerberg, co-fundador da rede". Leia a notícia completa 

      • Baianidade
      Confira o meu álbum com 35 cliques no litoral da Bahia
       

      Viva o médico legista!

      on quarta-feira, 7 de abril de 2010

      Comemorar é preciso e hoje é Dia Mundial da Saúde, do Jornalista, do Corretor e do Médico Legista. Isso faz todo o sentido, claro! Quem publica os obituários? O jornalista! Quem vende seguros de saúde e de vida? O corretor! E quem examina os que não se abaixam quando dão de encontro com as balas perdidas? Os médicos legais!                  

       Não é exagero dizer que o Instituto Médico Legal é "da hora", aliás, se fosse Instituto Médico Maneiro ninguém estranharia. Ou alguém estranha Hospital Maternidade? Morte e vida estão sempre de mãos dadas, não tem jeito!  Isso não é mórbido, é realidade nua e crua. Você compra um seguro de vida quando está gozando de plena saúde e alguém fatura quando você passa à alma penada.

      Legista é trilegal, pois, esclarece casos de vítimas vivas, mortas e, coitadinho, solitariamente, vive boa parte do seu tempo num lugar que só tem morto. Brincadeiras à parte, é fato que muitos se lembrarão de render suas homenagens aos jornalistas, ao Dia Mundial da Saúde - mesmo que não tenhamos muito para comemorar sobre esse tema - e talvez aos corretores.

      Embora os legistas trabalhem numa área que ninguém gostaria de precisar, se vasculharmos os anais da imprensa, certamente, encontraremos inúmeros casos em que esses profissionais bacanas fizeram toda a diferença, aliás, alguns de grande destaque e recentes como o do astro pop Michael Jackson e o da menina Isabela Nardoni. Sempre há quem diga com convicção: Erraram! Errar é humano, todos somos passíveis de erros. E em toda parte há os bons e os ruins.

      Sem sofrer quaisquer lesões, nesse dia de homenagem, você pode assistir ao vídeo de uma música, digamos assim, meio corpo de delito. Exibido em 1998, na TV Cultura, segue um trecho do tremendo ska chamado  "O médico e a moça", da banda Skuba, que fez muito sucesso na década de 90. Os músicos ainda vivem, mas a banda foi "pro saco".


      Tudo azul

      on sábado, 3 de abril de 2010


      Eu ganhei um presente e fiquei um pouco intrigada com a denominação: Gel creme hidratante desodorante corporal. Oie, pausa para respirar! Que tal, gel, creme, hidratante e desodorante corporal? A primeira coisa que me vem à cabeça é: Como uma coisa pode ser gel e creme ao mesmo tempo? Talvez o pai dos burros, o seu Aurélio, possa me ajudar.  


              Gel: Substantivo masculino.
              1.Quím. Coloide formado por um sólido disperso em um líquido.
              2.Pop. Cosmético gelatinoso us. no cabelo. [Pl.: géis, geles.]

              Creme: Substantivo masculino.
              1.Substância espessa, branco-amarelada, que se forma na superfície do leite; nata.
              2.Cul. Iguaria feita com leite engrossado com farinha.
              Adjetivo de dois gêneros e de dois números.
              3.Da cor do creme (1).
              4.Preparação farmacêutica destinada a uso externo e que comporta maior quantidade de água do que a pomada, sendo menos densa do que esta.

      Beleza! Os dois são substantivos masculinos! Mas o produto é da linha feminina. E agora entrou gelatina e pomada na mistura.  Esse tal de coloide é uma fase dispersa que estou dispensando no momento.

      Tentei o doutor Google, que tudo sabe. Há diversos produtos com a nomenclatura gel-creme ou creme-gel. Busquei glossários, sites de química, cosmetologia, mas não achei a definição exata de gel que também é creme ou vice-versa.

      Fui ao site do Boticário, pois, o produto é de lá: Linha Nativa Spa equilibrar gel creme hidratante desodorante corporal algas marinhas. Pausa para tomar fôlego. Busquei e não achei de jeito algum esse gel creme hidrat... isso aí. Voltei ao doutor Google e pesquisei. Achei o dito cujo em diversos sites, menos no do Boticário.

      Algas marinhas, embalagem azul da cor do mar, eu ficando mareada de tanto navegar nessa internet e achei! Encontrei as moléculas que compõem o oceano, mas, gel creme que é bom, nada. É, nado e morro na praia.

      "Entre o mar e o entardecer
      Alga marinha, vá na maresia
      Buscar ali um cheiro de azul"
      Ah, Djavan! Alivia-me tal padecimento gelatinoso, cremoso, sem pomadas, até "azulejar o dia".

      A única coisa que eu sei é que o tal gel creme, etc, etc... na minha visão de consumidora leiga em química é creme, aliás, um creme cheiroso para caramba. Essa parte do "nativa spa equilíbrio", sei lá, gente curiosa deve ser desequilibrada por natureza. Curiosa, pisciana e filha de Iemanjá, Nossa Senhora!

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