Trajetória

on terça-feira, 29 de junho de 2010

Espera que sua boca diga sem palavras. Molda-se pedindo apenas poesia silenciosa; secreção aquosa; manhas e artimanhas. Lábios cheios de truques! Ora beijo profundo e intenso, ora um brincar de morder a língua. Corre, percorre os contornos da boca, mordiscando, saboreando, sentindo, entregando. Pensa, se mil idéias passam pela cabeça, mil e uma podem precisar de tato. Mil e tantas podem acordar sentidos, dantes vôos da alma, impulsionados vivamente  e passados por alto em devaneios, sós, enfim.

Graffiti

on domingo, 27 de junho de 2010


Subi um monte, cheguei a um mirante de onde sou capaz de enxergar a intimidade com imposições de distância. Contemplo um muro e o surgimento de um graffiti multifacetado com palavras soltas se esvaindo pelo chão. Do alto, o muro parece pequeno. Descendo as escadas invisíveis, é uma enorme muralha descrita com matizes de músculos involuntários. Num ímpeto, derrubar o muro. Arte não cai, arte eleva. Num impulso, pular o muro e encontrar do outro lado um absurdo. Recolher palavras pelo chão: arranha céu lambe chão cai levanta coração desfaz refaz caminho concreta poesia narcisos girassóis pólen pulem altos baixos graça desgraça canto desencanto leveza novo ser derradeiro cume cimo sismos cismam chuta gol sorriso siso exorcizo juízo final inferno paraíso paz amor desamor dor é fé indolor arranque dentro fora tira põe guerreiros escravos palhaços lonas esquinas ruas sinucas funis berros becos ecos ecos ecos ecos amem amém.


Ensaios

on quarta-feira, 23 de junho de 2010


Música: Mônica e rosas
Composição: Eduardo C. R. Nogueira Jr.                                                                                                    
Derrama a chuva que transborda o coração
Não chores que a lua ilumina até clarão
Perceba no céu a estrela que brotou
Semeia as flores, a menina que voou

E abrem as rosas na primeira estação
Que é prima, não é Vera, é pra Mônica a canção
E viva estará, pois, é Rosas, uma flor
E eterna será mesmo quando o sol se for

Difícil de entender
Difícil de aceitar
 A vida rega as flores com gotas d´água

Difícil de entender
Difícil de aceitar
 A vida rega as flores com gotas d´água do mar

Primavera, viva a Mônica
Viva a era ultra-sônica
Ouça as notas, tire as tônicas
Molhe as rosas, faça sempre assim
Regando com a chuva

Fotografias:
Sandro Timm
Imagem do objeto: http://imagemdoobjeto.blogspot.com/
Ocaso real: http://ocasoreal.blogspot.com/
Rose Nakamura
Oriental Foto Flores: http://orientalfotosflores.blogspot.com
Terra do sol nascente: http://nihonterradosolnascente.blogspot.com/

José Saramago

on sexta-feira, 18 de junho de 2010


"Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é so um dia a mais".



Sem imperador, casseta, como vamos reinar no planeta do futebol?

on quinta-feira, 17 de junho de 2010

É bem verdade que o Adriano não está com uma silueta digna de um imperador do futebol. Mas em termos de elegância, a casaca do Dunga também não emplacou. Tendo uma seleção para liderar, ele poderia até cobrir-se com uma folha de parreira, sem problemas.                                                            

Mas na ausência de Ganso e com muitas saudades de Bussunda, o que nos resta é reparar no resto. O inesquecível marrentinho do Casseta e Planeta talvez sugerisse um "pé-de-pato estimuleitor das Organizações Tabajara" para a seleção ser mais feliz. Porém, o mestre zangado só fica dengoso quando a filha apresenta um novo modelito para ele usar enquanto os nossos jogadores tiram uma soneca na partida. Atchim! Haja saúde!


Mesmo que o nosso saudoso humorista pintasse um grafite do tamanho de um estádio com anões dançando o lago dos cisnes ao som de apitos e vuvuzelas, não chamaria a atenção do Dunga. Já a Coréia do Norte estava de olhos bem abertos. 

A seleção brasileira não acertou o passo, mas Dunga, disciplinado, acertou o abotoamento de seu look Herchcovitch com a mesma desenvoltura que escalaria uma seleção de futebol de botão.  Conto de fadas é coisa de criança e futebol não é coisa pra menina? Aí, fala sério!

Fomos desfalcados na Alemanha, terra natal da Branca de Neve.  A Copa era o de menos, perdemos para um dos mistérios da vida o nosso redondo, hilário e genial Bussunda, que sempre vai existir na nossa memória.

Agora, na terra dos Bafana Bafana, a seleção canarinho não está redondinha, não tem graça e treina misteriosamente, talvez por morrer de vergonha. E tudo caminha, não para o hexa, mas para algo que, possivelmente, não vamos gostar de lembrar.


Micros processados de quinta

on


Quinta-feira. Calor intenso e 180 graus até a resolução do vestir. Calçar é fácil. É meia com sapato fechado bicudo. Garantir pé quente pode ser bom para não entrar numa fria.               
                                    
Secura de noroeste. As pontas claras dos meus cabelos médios engancharam nas hastes dos meus óculos escuros. Os óculos são um. Cabelo é um montão, fios reunidos em pontas duplas. Hora de cortar o bem quase pela raiz. 
 
 

Gente não me magoa. O que me desgasta é a minha intuição. Ela tenta gritar mais alto, mais alto, mais alto... E eu a silencio. Escondo até de mim mesma. Como se ela não me pertencesse.
 
Tampo os ouvidos e sigo em frente. Ignorando a placa que diz "atravesse na faixa". Como se a minha razão pudesse dissimular o inevitável. Acontece, acontece que eu sabia. Acontece. Eu sabia.
 
Só uma nota graúda e não conferi o troco. Se não empatamos, tudo bem, alguém saiu ganhando.  No coletivo, almocei um sonho de valsa temperado com salsa de MP3.  


Rodopios de 360 graus. Eu posso dançar. Sei que ele me olhou bem nos olhos e disse: Bem, eu não sou navegador, mas li tudo lá no seu canto do ciberespaço. Lá, lá, lá, hã, o meu canto? E ele: Sim, já te conheço e tanto que nem preciso verbalizar pra te dizer. Mas ele não disse. Isso foi macro. Mas poderia ter sido. E foi. Sonhar distrai. 
 
Será que o doutor perito vai apalpar a minha cabeça? A minha mente é aberta.  Talvez ele encontre um vão e consiga enxergar lá dentro. Gente! Há! Lé! Com cré, o que é? Chorei, sim, e daí? Nem de tristeza, nem de alegria. Chorei de nada. Tudo pode ser nulo; nada há de ser alguma coisa; quaisquer. Dancei!
 
Eu sabia. Guardei em algum lugar tão lá no fundo que nem sei. Não, eu sabia! Eu só não achei. Nem quis procurar. Não queria encontrar. Pois, ressurgiu, já no meio da poeira, dos riscos, arranhões, quebradeiras. Ao lado, ao acaso, entre um sobressalto e o rememorar da certeza. De novo, surgiu o que deixei para trás. 


Deixo, ensurdeço quando me convém. Mas quem disse que é conveniente? Sei e não aprendo. Desde os 12 anos, eu compro os meus sapatos, escolho os passos, ruelas, vãos e avenidas por onde meus calçados levarão os meus pés e safenas. Nunca comprei chapéus!

Sem troco, tudo exato. Mas um trem pode transformar o trânsito do cais em caos. Pombas! Acho que tem uma morta bem ali! Avançamos alguns centímetros a bem menos de cem por hora. Deu pra ver que era só uma folha de revista de fofoca; já sem cor. Amassada em forma de ave. Lançada ao teto de vidro.  Terminei com o Seu Jorge e Tive razão, foi bem legal.

Bons acordes!

on quarta-feira, 16 de junho de 2010

Enquanto dormia, eu recebi um eco de felicidade vindo diretamente do Japão. Talvez a Rose Nakamura estivesse dormindo enquanto eu desembrulhava o presente. Um meme que consiste em oferecer músicas para quatro amigos e a Rose repassou com flores - a que eu ganhei está aqui deixando essa postagem mais bonita.                                                                                
O som que tocou para mim nesse meme foi "O leãozinho", de Caetano Veloso. Mal sabe a Rose, mas, minha amiga Elaine Porta, astróloga, contou-me por esses dias que estou no meu ano leão.  

Rose:  Ao invés de te agradecer com flores, eu te envio uma missão animada. Sim, pois se o Shinji queria saber quantos anos vivem as fadas, talvez ele queira saber o que é jenipapo e o que isso tem a ver com pato...




Meus amigos: Espero que gostem da trilha sonora:

Herval: Há um menino morando no seu coração repleto de palavras bonitas: "Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor".



Jackie, minha amiga Fênix: Você poderia tirar um coelho de uma cartola, magia pura, mas a sua especialidade é criar arco-íris de quaisquer vestígios acinzentados.


Príncipe: A sua arte de paz não há de ser perturbadora, mensagens não têm máscaras, “amor não aceita fronteira como primavera não escolhe jardim”. 


Albano, meu amigo de prosas e canções: Receba a luminosidade e o perfume dessa seresta virtual. Eu ainda vou seguir os seus conselhos e ouvir essa lá em Conservatória.




No dia 17/06/2010, a querida Biana Bac, do blog Beleza, Comportamento, Moda e Saúde, também me ofereceu nessa corrente do bem uma linda canção: Can you feel the love tonight Live, Elton John. E eu fiquei tocada quando ela me disse num comentário que "foi uma escolha difícil, tinha que ser algo para retratar uma pessoa justa, determinada, segura de si, e que cuida de quem ama como uma verdadeira leoa!". Lisonjeada com a escolha de uma música tão envolvente e palavras tão gratificantes, para expressar o meu agradecimento, eu fui ao seu outro blog, o Gifs da Bac, e não havia lugar melhor para encontrar uma forma de selar a nossa amizade.

Prêmio Dardos

on segunda-feira, 14 de junho de 2010

Nossa, como estou atrasada! Mas isso não é novidade. No dia 20 de maio, eu recebi do amigo Radi Lopes, do blog de variedades "de qui tu laif", o selo Dardos. Esse prêmio reconhece a criatividade e o valor cultural dos blogs. Mesmo que eu esgote os meus neurônios tentando imaginar como descrever  a sensação de ser acertada em cheio direto no coração, eu não vou encontrar palavras para agradecer a alegria de receber esse importante selo.                                                                              

Um dia desses, eu registrei uma imagem da janela do meu quarto e usei no meu perfil. O Radi  gostou e abrilhantou  batizando a fotografia de "Passageiros". Esse expresso de felicidade é inesgotável e chama-se amizade com respeito e admiração recíproca. Deixo o meu muito obrigada, um pedido de perdão por demorar para encontrar tamanho presente e o sol que encantou o meu amigo, sol tão radiante quanto o próprio Radi.


O correto é indicar 15 blogs para também serem premiados. Mas eu vou fazer algo diferente e não sei se vocês me aprovam. Eu vou pedir sugestões aos leitores do "Gostos desgostos" e aos poucos vou incluindo os indicados - com muito gosto, claro! Se puderem e quiserem participar dessa escolha, basta deixar um comentário. Desde já, eu fico grata.

15/06/2010
 
Amigos: 

 
Em clima de confraternização, nós escolhemos mais de 15 blogs. Eu agradeço demais a ajuda porque algumas indicações dos amigos seriam realmente as minhas escolhas pessoais, entretanto, tive a oportunidade de conhecer outros blogs incríveis e só saí ganhando quando pedi ajuda. 

 
Agradecimentos: Príncipe, Juci Dias, Marivan, Cecília Avenca, André Luiz da Silva Barros, Diego Jr., Thiago Blauth Ferreira, Erich, Joel Loureiro Correia, Silvana Marmo, Fatima Zanin, Sumie, Lilian Candello Salvadori, Isaias, Radi, Douglas De, Junior e fabiolucioblog. 

 
Alguns blogs foram indicados mais de uma vez. O critério exigido pelo Selo Dardos é criatividade e valor cultural. Para não exceder o número de indicações, eu procurei verificar em cada blog, entre os indicados que estavam dentro do critério, os que ainda não foram premiados com o Selo Dardos. Ainda assim, ficamos com 17 indicações e não há como desconsiderar, ou seja, vamos com duas indicações a mais - em ordem alfabética. 


Se não acertei, peço mil desculpas. Se acertamos, é importante dizer aos contemplados que não houve concurso ou eleição, porém, o selo segue com o valor equivalente ao de uma votação popular e com os votos de sucesso e felicidades mil.
 
Eis os indicados:


1.    Blog do Tsavkko - The Angry Brazilian - http://tsavkko.blogspot.com/
2.    Cantora Lauriete - www.cantoralauriete.blogspot.com
3.    Compartilhando as letras - http://www.compartilhandoasletras.com
4.    Dinisil - http://dinisil.blogspot.com
5.    Evoluímos? -  http://evoluimos.blogspot.com
6.    Inutilia truncat - Saia da mesmice - http://blogdoutil.blogspot.com
7.    Leila Franca - http://leilafranca.blogspot.com
8.    Lisonline - http://www.lisononline.com.br
9.    Mamãe recomenda - http://www.mamaerecomenda.com.br
10.    O que é isso? - www.oqueeisso.blog.br
11.    Papoetas - http://papoetas.blogspot.com
12.    Pavablog - http://www.pavablog.com/
13.    Performance com saúde - http://superperformance.blogspot.com/
14.    Priscila Rodrigues - http://cantorapriscilarodrigues.blogspot.com
15.    Rosy Blog - http://rosyoab.blogspot.com
16.    Sábias palavras - http://sabias-palavras.blogspot.com/
17.    Um pouco além do óbvio - http://poucoalem.blogspot.com/

Centenário de Pagu

on quarta-feira, 9 de junho de 2010


Um peixe

Um pedaço de trapo que fosse
Atirado numa estrada
Em que todos pisam
Um pouco de brisa
Uma gota de chuva
Uma lágrima
Um pedaço de livro
Uma letra ou um número
Um nada, pelo menos
Desesperadamente nada.

Patrícia Galvão 
                                                                                                                       

1931

É presa, a 23 de agosto, em Santos (SP), ao participar de um comício em homenagem a Sacco e Vanzetti, quando um estivador negro morre em seus braços, fuzilado pela polícia getulista. É levada para o cárcere na Praça dos Andradas. A cadeia é hoje um centro cultural que leva o seu nome.
http://www.pagu.com.br/blog/cronologia/


Fotos de Kleber Vicente inspiradas em Pagu, realizadas na Cadeia Velha de Santos, em 2006, com a atriz Camila Vaz:




Mais informações:

Blind Nelson

on segunda-feira, 7 de junho de 2010

Hoje eu acordei com uma vontade danada de jogar tudo para o alto. A vida está aí para ser vivida. Não faz sentido acordar tão cedo, pegar um trem tão lotado, conviver com pessoas tão chatas em troca de tão vaga subsistência. Ouvi numa reportagem de TV que algumas pessoas conseguem viver de luz. Quero viver de sons nem que seja passando o chapéu na praça. Quero mergulhar no futuro. Já nem lembro mais de quando eu enxergava.       
                                                      
A única herança que tenho daquele maldito acidente é um genuíno nome de bluesman. A única boa lembrança que eu guardo das viagens matinais de trem são os aplausos dos passageiros que eu divertia com a minha gaita.  Trens e trilhos, de uma maneira ou de outra, fazem parte da cultura blueseira. E cegos, de uma maneira ou de outra, fazem parte da História do Blues. Dizem que sou americanizado. Mas eu sou um brasileiro legitimado bluesman. Não posso olhar para frente, mas, posso dar sentido à minha vida. Posso ir atrás de quem esteja disposto a me ouvir. Posso defender uns trocados para pagar o whiskey nosso de cada dia.

Sinto falta daquela mulher que sempre fazia amor só comigo. Ela queria mais da vida? Não. Ela só queria alguma coisa da vida. Qualquer coisa. Inspirar as minhas canções talvez. Mas não sei onde ela anda. Faz tempo que não sonho. É lá que ela mora e lá é o único lugar em que consigo vê-la. Sonhos, já inventaram um controle remoto para isso? Eu queria sentir o seu cheiro, passar a mão em sua pele, alisar os seus cabelos. 

Ainda não encontrei uma explicação plausível para o que fiz da minha vida e tampouco consigo fazer planos. Por enquanto apenas sinto; o tempo indo e eu ficando. Logo serei mais um velho tentando lembrar as letras dos meus blues favoritos para cantar e tocar para ninguém. A platéia não irá bater à minha porta. Para estar no palco é preciso andar na direção dele. Naquele trem, eu estava indo na direção contrária. Estou farto de lutar para alimentar o corpo enquanto a minha alma apodrece.

Hoje estou meio down, meio blues. Mas o meu velho amigo da banda do colégio me recebe ao piano e toca How long blues. Muitos risos de tempos sem siso e lembranças de quando eu podia ver as pernas das moças nas minissaias. Mas agora é muito melhor porque vou logo apalpando sob o pretexto de examinar a grossura das coxas. O bom de ser cego é que você não precisa encarar risos falsos. Você sente a vida pelos sons, pelo cheiro, pelo calor. 

Pois termino mais um whiskey, apago o cigarro e vou para o palco tocar, por que não? E de repente um perfume me invade. Entorpecido até me esqueço de agradecer aos aplausos que tanto busquei. Não sei o porquê, mas, eu me sinto um autêntico bluesman capaz de escrever a minha própria música. Ouço uma voz feminina cantarolando e me vejo tentando supor a beleza daquela mulher. Eu poderia comê-la com os olhos.

Blind Nelson acompanha Miss Rose

Miss Rose

on

Hoje eu acordei com uma vontade danada de fazer uma grande festa. Motivo eu tenho, afinal de contas, faz um ano que estou limpa. Mas que festa seria essa sem brindes, sem luzes, sem orquestra, sem convidados! Agora lembrei que afastei o esplendor da minha vida em troca de alguns goles, de muitos porres que me anularam.               
                                                                                                 
Só me resta um encontro com recordações daquele tempo remoto que eu tinha controle. A saudade empoeirada guardada em uma gaveta secreta, numa caixa velha, esquecida em algum lugar na confusão dos meus sentimentos. Mas basta olhar as fotografias que elas se renovam. Por mais que sejam em preto e branco, a vida fica mais colorida quando se tem boas lembranças. Nostalgia não me causa melancolia. Só me traz a certeza de que um dia, num passado distante, eu fui feliz, apesar de tudo. A foto de quando fui miss na minha cidade me faz lembrar que sou uma mulher.  

O que me causa melancolia é o presente. É quando percebo que ainda sou mulher, porém, esquecida de mim mesma, das minhas vaidades, dos meus desejos. Perdi o viço, o brilho nos olhos, o frescor da minha pele. A beleza também é remota! Ainda remexendo a velha caixa de imagens preto e branco amareladas, sinto falta de uma do meu marido e outra dos meus filhos brincando no jardim. Deve ser porque não os tive. 

Ainda não encontrei uma explicação plausível para o que fiz da minha vida e tampouco consigo fazer planos. Se eu tento olhar para frente tudo o que consigo ver é uma velha solitária olhando para trás. Se o presente é melancólico, o futuro é desesperançado, desesperador, despedaçado pelo meu penúltimo passado. Dessa maneira, não vejo o porquê de uma festa sem brindes, sem néons, sem música. Estou farta de lutar por uma existência que só existe na minha memória. Não consigo mais conviver com a ex-miss do espelho. Sou digna; de dó. Danem-se os convidados! Antes só do que nunca. 

Hoje eu estou meio down, meio blues. Quero ficar sozinha para ir me acostumando com a solidão que assombrará o meu porvir. Para comemorar um ano de ex-vida nova e o início da minha nova velha vida sem sentido, serve qualquer bar que sirva bourbon e ecoe doze compassos que tocam na alma, que ferem, que doem. A minha velha vida de risos falsos pelo menos tem risos, tem som, tem cheiro, tem movimento. 

Pois encosto-me ao balcão, acendo um cigarro e peço um bourbon, por que não? Mas prestes a virar o primeiro gole, ouço o acorde do bluesman. Ele mal pisa no palco e eu acordo entorpecida sem ao menos encostar na boca o copo. Ele me come com os olhos e eu quase consigo tocar com as minhas próprias mãos aquelas fotos que ainda não existem. Sem perceber, estou na frente do palco cantarolando, me sentindo mulher novamente.

Miss Rose acompanha Blind Nelson

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