Eu me orgulho de ter aprendido a ler e escrever com minha mãe. Mas não me orgulho da arte, no sentido de arteira e não de artista, que fiz na escola. Como eu já era alfabetizada, passava o tempo escrevendo as lições ao contrário. O meu caderno precisava de alguma habilidade ou um espelho para ser lido.
Mas a magia dessa historinha sem bruxas e princesas, de um tempo que morávamos no fascinante Vale do Ribeira, é que de muitas formas eu sou reflexo, história e criação de mamãe. Ela me ensinou as letras e é minha primeira leitora desde sempre. Eu ainda não publiquei um livro, no entanto, minha mãe tem na memória diversas páginas escritas por mim, incluindo redações escolares e postagens desse blog.
Mas a magia dessa historinha sem bruxas e princesas, de um tempo que morávamos no fascinante Vale do Ribeira, é que de muitas formas eu sou reflexo, história e criação de mamãe. Ela me ensinou as letras e é minha primeira leitora desde sempre. Eu ainda não publiquei um livro, no entanto, minha mãe tem na memória diversas páginas escritas por mim, incluindo redações escolares e postagens desse blog.
Da meninice até aqui, eu aprendi que existem meias verdades, verdades e verdades verdadeiras. E a ficção pode ser uma mentira recheada de realidades. Alguns fantasmas são de carne e osso, algumas criações transcendem o imaginário e viram criaturas. O espelho pode revelar ou distorcer, tudo depende dos olhos de quem vê.
Há quem viva sua própria vida e há quem só exista se alimentando de existências alheias. O tempo passa para todos, verdade verdadeira, porém, se é corrente ou elo, se aprisiona ou liga, é questão de conjugar ser e ter. Caminhos podem ser percorridos com dor ou amor, pois, com dor não exclui o amor. E o vice-versa nada mais é do que espelho.
“- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... A alma exterior pode ser um espírito, um fluído, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação”.
Machado de Assis
Hoje é comemorado o Dia do escritor. O mundo da ficção não existe sem enredo, personagens, ambiente, tempo, sentimentos e coragem. O escritor tem um observatório particular. Inspiração não cai do céu, cai de suor, lágrimas, saraivadas para, enfim, elevar. Mesmo que um poeta seja fingidor precisa ser pessoa e ter coração.
O amazonense Lison Costa, uma das mais adoráveis e queridas pessoas da blogosfera, veio ao mundo com um único fio de cabelo e só usou sapatos a partir dos 15 anos. Dos pés à cabeça, Lison, de vida é entendedor e encanta a todos com a sua mente privilegiada. Ele começou a aprender a ler com 12 anos de idade.
Alguns poderiam dizer que ele começou a ler muito tarde, outros que minha mãe me ensinou muito cedo. Só um fato importa: Nossos espelhos não se quebraram. Construímos nossos blogs palavra por palavra, gostamos de leitura e ponto final. Até o recomeço de mais um edificar desvendando personagens que escrevem. Sim, o escritor é antes de tudo um personagem, alguém que “finge tão completamente e gira a entreter a razão”.
E o exercício da leitura não pode ter fronteiras. Se por um lado inspiração não cai do céu, razões podem surgir de escombros. Um terremoto trouxe à tona a literatura baseada no Haiti. Entre guerra e paz, brancos e negros, mundo do futebol e universo de barbaridades, algumas letras saltaram também de livros para as telonas dos cinemas.
Tempos difíceis saltam aos olhos, ambientes hostis geram inúmeros argumentos. E há quem acredite que escritor precisa de tempo para amadurecer e, finalmente, nos enredar. Antes de compor a narrativa, é preciso enxergar no espelho rugas que estampem vivência e a profundidade da obra.
“Às vezes, a vida dá nó. A linha do tempo é regida pela agulha do relógio. Os acontecimentos são tantos, que quando unidos viram colcha de retalhos. O bordado é complicado. O dedal nem sempre impede a dor.
Uma gota de sangue escorre a cada alfinetada inesperada. Um sofrimento, uma lástima. A costura não para. O tecido é a própria pele, que sente, que fere. E assim segue...
De repente, vem a tesoura. Brilhante, ela se impõe. O metal faz seu trabalho, não desamarra, arrebenta. Os laços viram fiapos. E de uma vida, a morte se faz”.
Esse texto é do blog da jovem carioca Mariana Mauro, que acaba de lançar o seu primeiro livro pelo Clube dos autores. “Apaixonada por natureza” conta a história de Lívia Rinny, moça urbana que vai começar vida nova numa pequena cidade do interior e passa por diversas reviravoltas que a impõe mudanças de atitude.
O processo criativo de Mariana traz uma revelação: “Eu cresci escrevendo esse livro e tenho certeza de que alguém crescerá com ele também... Assim eu espero”. E um dos marcadores da postagem que anuncia a publicação do livro é “felicidade”.
O tempo que conta para o ofício do escritor não é a idade, mas o nobre exercício de experimentar viver com um olhar voltado para os espelhos dos semelhantes e refletir no trabalho a sua própria alma. Escrever sem a pena, manusear agulha e linha, sonhar os sonhos dos outros para levar leitores nas asas da imaginação.
Aos escritores: Desejo sucesso, felicidades e uma boa viagem de dentro para fora.
Aos leitores: Desejo sucesso, felicidades e uma boa viagem de fora para dentro.
















