Guest Post: Julgar faz parte

on sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Por Camila Vaz

Ontem, uma amiga leu uma crônica de uma pessoa que se diz escritora e que ainda fala com toda as letras que escreve bem. Ela tentava falar sobre a vida, mas caiu nos meus ouvidos como um horóscopo mal escrito. Pensei, então, que eu, além de não escrever bem e ainda ser disléxica, poderia ,sim, fazer melhor. Não é porque sou melhor; é porque talvez eu viva melhor. Ela diz que a vida é um parque de diversões, mas não vi diversão no que ela tentou me dizer. 

Em tempos de redes sociais e novas mídias fica fácil julgar alguém pela foto. Minha mãe sempre me diz: “Não julgue para não ser julgada!” Ela não sabe o que é Facebook. Podemos notar como as pessoas quase realmente são o que são. Quem são seus amigos? Eu sempre julguei as pessoas pela quantidade de amigos bons que elas têm, pelos amigos que falam a verdade. 

Curtir um post não quer dizer que você seja legal ou engraçado ou que sabe escrever. Quer dizer: “Eu li o que você disse e concordo com você.” Ou então: “Ei, estou aqui lendo tudo e observando, tá?” Mas a questão não é essa. O Facebook faz parte das novas vidas e a vida antes já existia. A vida é bem mais que a metáfora da roda gigante, da montanha-russa porque isso todo mundo sabe.

A vida é pra ter intensidade. A vida é conhecimento e ficar falando sobre ela inevitavelmente me fará escrever clichês. Mas, ué, a vida não é cheia de clichês? E quem não quer dar um beijo no português da novela? E quem não sonha com o professor Astro? Quem não acha que aquele beijo muda tudo? A vida é isso. Rotina, cotidiano, mas devemos lembrar que mesmo que vivamos o simples e o básico, tem que ter graça, humor, amor. Tem que ter a sua essência. Tem que ter suas questões e dúvidas pulsantes o tempo todo.

A vida é uma criançona. Roda gigante é só um brinquedo. A vida é ouvir uma música brega do Wando e dançar com a sua amiga na sala imitando a sua tia. A vida é gastar um dinheiro que você não podia para pular com a sua melhor amiga em um festival de rock e achar maravilhoso! A vida é pra ser vivida, ouvida e sentida. A vida é bola dividida. A vida é sua! E só saber viver com alguém que possa curtir e compartilhar com você.  


Camila Vaz é atriz e humorista. Também é uma das apresentadoras do programa Blá, blá, blá do amor, na rádio Roquette Pinto

Twitter: @camis_vaz
Para ouvir o programa Blá, blá, blá do amor ao vivo, online, toda quinta-feira, das 20 às 21 horas, e interagir no chat:

Kabuki

on

Ninguém precisou perguntar o que ela seria quando crescesse. Por iniciativa própria, a pequenina Camila decidiu, arregalou os seus espertos olhos negros, tirou do rosto uma mecha de seus tantos cachos e, com toda a seriedade, trovejou:

_ Quando eu crescer quero ser japonesa de vender pastel.

Nós os adultos achávamos gracioso o jeito da criança e tentávamos explicar:

_ Japonesa de vender pastel, Camila? Vender pastel é perfeitamente possível, entretanto, para ser japonesa só nascendo de novo, não tem jeito.

Porém, já crescida, ela nos provou que estávamos todos errados. A mulher que desabrochou já foi homem, idosa, criança, mãe, filha, madrasta, Branca de Neve, duende, boneca, patinadora, atleta, flor, ogro, perua, bicho-da-seda, garçonete, Rita Lee, Pagu, bela rainha, forte guerreiro, pobre vítima, perigosa vilã, de tudo, ainda há de ser muito mais, pois, pode ser até gueixa e ninguém há de duvidar da atriz.


Camila Vaz em Jogos de Massacre, de Eugene Ionesco.

Twitter: @camis_vaz
Facebook: http://www.facebook.com/camisvaz

Medo do cão

on quarta-feira, 12 de outubro de 2011


Para conhecer a palavra cinofobia, Janaína precisou abrir o dicionário e descobrir que, desde a infância, já sabia o significado pavoroso. Grandões, pequeninos, vira-latas, com pedigree, ela nem precisava chegar perto para sentir aquele medo irracional. Um latido ao longe já soava como a marcha fúnebre.  

Evitou o transtorno até amadurecer, tornar-se mãe e ouvir da filha que o melhor presente do mundo inteiro seria um Poodle Toy. Tal pedido acionou uma contagem regressiva para o dia das crianças da pequena Alice e uma bomba relógio de um tic tac insano na cabeça de Janaína. Alice recusou um gatinho amoroso e, antes de o tempo se esgotar, a mãe resolveu tentar um peixinho dourado.  

Percorrendo uma avenida, Janaína entrou em colapso ao notar que dividia a calçada com o melhor amigo de um homem. Sequer percebeu o perigo que vinha do outro lado e a sua bolsa sendo tomada de assalto por um vulto fugaz. Achou que morreria quando o pastor alemão soltou-se do dono e correu arrastando a coleira. Nem se refez do susto, reencontrou o cachorro abanando o rabo. Inesperadamente, ela pegou a bolsa na boca do bicho e passou-lhe a mão na cabeça em sinal de gratidão.

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